Escritos espirituais II

Eu queria me reinventar. Cuidar de mim para mim. Cuidar do meu corpo, do meu espírito, da minha plástica. Nunca conseguia e confirmava-se sempre como a desistência de mim. Vivia como se. Era algo que já não se queria mais, mas não deixava de ser. A todo instante, a incessante angústia de ser outra coisa melhor se apegava a uma gênese. Precisava partir de algum momento, de algum lugar, de alguma coisa. Esse novo nascimento precisava ter sua certidão para contar histórias para outros tempos. Busquei por muito tempo um totem que me guiasse. Busquei fora, busquei dentro. Inanimado, almínico. No presente, no passado e até no futuro. Nada funcionava, nada brilhava como um totem. Busquei os guias e os manuais. Mas nenhum destes levam a reinvenção, são cópias. Tentei várias vezes sem sucesso um início.  Durava uns dias, um dia, uma hora, um instante. Pensei-me condenado a ser sempre este. Pensei-me uma sucessão de tentativas. Discrente. Entreguei-me à gordura, ao álcool, à preguiça, não lia mais nada. Desistente. Filosoficamente, convicente este lugar poético: desistente. Mas eu queria insistir e a desistência não soava como escolha. Condenado. Vítima. Impotente. Tentava outras tantas vezes. Neste exato momento, tento. Um livro qualquer no livreiro pode ser meu guia, meu manual. Mesmo que fale de outras coisas. A obra completa de Tolstoi será meu Bhagavad-Gita. Este exato momento, eu renasci. Não precisa de certidão, depois eu lembrarei. Assim, de repente, eu me fiz o que tentava há anos. A dúvida que ronda sobre esta ser apenas mas uma tentativa ficou registrada no meu espólio, na minha poesia. Mas assim, de repente, fui...

Ramon Alcântara