A moça do brejo

Lava-se, alma, pelo avesso
na pedra e na água corrente do rio.
Coloca-se para quarar
no sol amarelo-bebê da manhã.
Pendura-se sem pregadores
no varal ao vento ascendente mais forte.
Passa o dedo no azul do céu,
Mistura-se com as nuvens,
cai como pena, desviando-se da chuva,
na terra molhada.
Vive novamente,
fazendo do barro, das formigas,
do lombo das raízes e das folhas secas
o corpo para si.

Corre em sua direção e diz baixinho,
sobrepondo as mãos sujas e molhadas nas suas costas,
causando um arrepio, quase suspirando:
eu te desejo em segredo.

Ramon Alcântara