O príncipe encantado e a heroína

I

Não adiantavam nem choros em calhamaços, nem chorumes
- eu só via risos, só ouvia risos, só havia risos, sorrisos
e agora assim foi buscar felicidade em outros fracos braços,
outros amassados laços, maços de espaços do que é preciso de fato.

Fugia para todos lados e para outros fatos chatos magros casos,
- você me tinha canalha, não venha canalha, desdenha canalha
e destratado pelo acaso deliberado por seu senso vago largo
estático ou em pequenos passos me aproximava caía de nossas falhas.

Estávamos todos perdidos deitados em terrenos circulares vadios,
- eu procurava atitudes, eu protelava atitudes, você protelava atitudes
de certa forma nesses que ficamos rendidos por nós frouxamente eles
e os limites marginais finalmente nos levariam para uma abismal incompletude.

Passou-se o tempo e não adianta eu nem tento novamente estar
- você não soube me encontrar, não soube te contar que você não estava lá
e saberíamos logo que o aprisionamento da coragem é a liberdade de amedrontar
por isso mesmo o príncipe toma a heroína para salvá-la e para se salvar.

II

Agora as crianças deturpam nosso enredo como um ledo engano
- você estava certa, você quase acerta, você estava incerta
e riem como se fosse comédia a tragédia dramática por debaixo dos panos
e engordam as doces bochechas vermelhas platéia fantasiosa concreta.

A heroína que havia salvo o príncipe sai como se surrupiado seu bem-estar
- você meu bem esteve em você, meu bem está sem você, meu bem
há poetas enlouquecidos caçando-a para muita surra bruta queimá-la
há bruxas desejantes, putas corajosas, serafins e homens do além.

Do verdadeiro príncipe pouco se sabe se ainda se encanta com o vão
- você não me quer mais, mas me quer mais, mais que o mas que não quer
entretanto o encanto que nem era tanto ficou no canto do primeiro não
ele vai em desvão por aí na contramão da solidão que companhia não é?

Há quem fale em retornos sem engôdos dos mais amores gordos que se teme
- você não se importa com minha tristeza, você não importa minha tristeza
e viveriam tristes para sempre um do lado do outro lado do outro sempre
no inverso do anverso do verso que a versão inventou para os outros ela.

As reticências não justificam os meios fins em silêncio não diz sim talvez
- você sem palavras, mas você tem palavra, você nem calava quando era
alguns contam os momentos felizes nos entremeios incertos dos reversos
conversas longas intermináveis que buscavam tempos incontáveis inimagináveis.

O príncipe encantado e a heroína cantavam tardes luxuriosas maravistosas
- vem, vem, vem, vem, vem, vem, vem, vem, vem, vem, vem, vem você
jamais estiveram lá em corpo, eram seus fantasmas antecipados putarias gloriosas
eternidades nasciam dela, gerações inteiras para-seculares do gozo-rei.

- ...?

Na verdade, a história não houve, os personagens todos interpretados por você realidade
- você sou eu, eu sou você, nós somos nós que sou eu, eu sou eu, a mentira sou eu?
não houve príncipe, nem heroína, nem platéia, nem crianças, nem coadjuvantes infelizes
até os poetas eram você, tudo inclusive isso poesia maestria de nada de fim, lugar-eu-você.

Ramon Alcântara