Seu corpo despojado sobre minha rede de significantes

Seu corpo despojado
sobre minha rede de significantes
e tudo que me atravessa
passa por você,

como o riacho
que corre seu leito
e leva consigo
suas curvas e meu corpo-bóia,

como os vitrais
e as luzes que me iluminam
desenhando-te em mim,

como os temperos,
que me fazem saboreá-la
em outros instantes
a posteriori,

como os incensos
e suas transcendentais fumaças
penetrando seu aroma na paisagem
a que pertenço,

como a lira de Hermes
que canta o nascimento dos deuses,
e me fazem ouvir sua presença tal qual uma teogonia,

você é minha sinestesia,
minha linguagem,
o único produto de minha fórmula.

Seu corpo despojado
sobre minha rede de significantes
faz-me perceber catarticamente
que se a vida é eterna,
somos almas-gêmeas;
mas se esta é a única,
a minha foi feita para seu deleite.
Ainda, que cada um de nós
tem a propriedade sobre sua vida
e que amar para mim é doar
esse meu bem para você.

Ramon Alcântara