Ainda lendo a poesia de ontem IV

Ainda mais ontem...

___

A preocupação de minha mãe

A preocupação de minha mãe
torna-me ainda mais tristonho.
Ela me olha com olhos de lágrimas,
quer saber com o quê eu sonho.

Mas eu não estou a sonhar,
apenas não estou entendendo
porque meu sorriso está mais triste,
porque minhas mãozinhas estão tremendo.

É por isso, mãe – digo-lhe –
que ando tão disperso e apático.
Isso, quando ando,
pois é mais fácil encontrar-me aqui em baixo.

A preocupação de minha mãe
torna-me ainda mais medonho.
Ela estica suas mãos de lenço
e eu me encolho mais, não quero levantar (?).

Assim, fico deitado, choroso.
Fico olhar ela me olhar.
Ramon! Por favor... – diz-me.
Mas mãe, minhas perninhas estão a fraquejar.

Ramon Alcântara

____

Música? Diferenças

Agora embrutecido pelo álcool.
Vinho? Paixão.
Meu sangue concreto: tijolo
bombeado pelo coração.
Inicio meu discurso.

Te amo? Te amo.
Mas quero me afastar.
Me maltrato, pelo direito de maltratar.
Recuo três passos de ti
completando o milhar.

Agora embebecido pela paixão.
Álcool? Sangue.
Meu bruto coração: tijolo
bombeado pelo vinho.
Continuo meu discurso.

Te amo? Te amo.
Mas as músicas que queria escutar,
você, cantar, afim não estava.
Afim não está.
Afim não estará.

Agora apaixonado pela concretude
Coração? Bêbado.
Meu sangue vinho: tijolo
bombeado pela brutalidade.
Finalizo meu discurso.

Te amo? Te amo.
Mas as diferenças, não.
As diferenças sim, como músicas,
te afastam de mim, pelo direito de afastar.
Recue três notas, que ela passa
completando o: me amas?

Ramon Alcântara

____

Minha concertista

Ouço o violino soar.
Lá está minha querida concertista
a tocar solitária em sua orquestra
no imenso teatro luxuoso.

Ela toca, sentada em sua cadeira.
Toca, sem saber que ninguém lhe acompanha,
com os olhos fechados
e com os ouvidos compenetrados.

É uma imagem triste.
É um soar ainda mais triste.
Minha linda concertista, solitária.
Ninguém a acompanha.

E assim todo som existente
provém das rígidas cordas do violino.
Um som entrevador, produtor de choro,
lembrador de lembranças de dor.

A minha linda e melancólica concertista
já há horas a tocar.
Não percebe, decerto, o tempo passar.
Já sua, mas não demonstra cansaço.

Mas sim, emoção, muita emoção.
O ritmo tocante faz o teatro ruir
e com ele todos sentimentos que há.
Vai tudo ao chão, surge uma imensa nuvem de poeira.

Volto a abrir os olhos,
vejo que já alucinava.
Volto os olhos à minha amada concertista
a tocar seu violino, em sua orquestra solitária.

Já chora, já demonstra cansaço.
Foram dias, só agora me dei por conta.
Quanta emoção! Que imagem! Que som!
Tudo isso mereceria anos de aplausos.

Então, por ela está desgastada
e por essa necessidade incomum de aplausos,
levantei-me e a interrompi, aplaudindo-a bem alto.
Só então notei pelo eco ensurdecedor que no imenso teatro só havia eu.

Ramon Alcântara

____

E de choro, choveu

Minha saudade era tanta!
Minha solidão, tanta!
Minha tristeza, tanta!
Minha paixão era tanta!
Minha agonia era tanta!
Tanta!
Tanta!
Tanta!
Tanta!
Tanta!
Que no meu esgotar,
quando a primeira lágrima se fez,
meu corpo não teve como suportar,
sem o seu...
Tive que clamar ajuda do céu,
e de choro, choveu.

Ramon Alcântara