Ainda lendo a poesia de ontem III

Ainda ontem...

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Filho prescrito ou Destempo

Nasceu antes.
Antes de nascer, já não valia.

No tempo que não se conta.

É o que nunca vem,
o que vinha.

Do fim que não começa.

Acima de tudo prescrito,
o filho da poesia.
Antepois. Jesus e Maria.

Quer o fim da sua agonia,
precedida de dia.

Higiene e deja vu.

Estando lá, é aqui.
Espelho que sem reflexo se garantia.

Morreu depois.
Mesmo depois de morrer,
ainda não existia.

Embora porque inexista,
não pereça.

Ramon Alcântara

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A Festa do Homem

Convido-te para uma Festa.
A Festa eterna,
que sempre houve e haverá.
A festa que os convidados
não param de ir e chegar-
que a banda, de tocar.
As bebidas sempre geladas.
Os garçons com as taças.
Venha nos prestigiar.
Comida a rodo pra degustar.
Chame amigos pra dançar,
a música nunca vai acabar.
Venha imediatamente!
Só não traga nem deus nem diabo,
pois o quarto é pequeno
e por isso não se pode pensar.

Ramon Alcântara

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"Enfim nos encontramos no lugar onde verás a gente atormentada que não pôde conservar a luz do bem (...) Ali, soavam queixas e lamentos; enchiam o ar, em meio à escuridão, e meteram-me medo por uns momentos. Diversas línguas, muita murmuração, gemidos, brados de ira e de dor, urros, sons de mãos chocando contra o corpo (...) Tal horror espicaçava-me a mente, e disse a Virgílio: ‘Mestre, que ouço agora? Que gente é esta, que a dor está prostrando?’. ‘Queixa-se dessa maneira’, tornou-me, ‘quem viveu com indiferença a vida, sem ter nunca merecido nem louvor nem censura ignominiosa'"
(Dante, A Divina Comédia, p. 17).

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Escatologia do Homem Mediano
(Tratado sobre os fins últimos do Homem)



Dou-me por satisfeito
de lamber os beiços
de quem a carne
de deus comeu.
Rastejo sob sob
melado pelo gozo
desta mesma pessoa.
Não me ofenda
com teu cuspo falado,
pois minha alma
é dos vis e malvados
e nada mais a macula.
Dou-me a qualquer
por me saber dividendo
quando ele declinou.
Dádiva por detrás
na esperança de sobrar.
Horror amiúde.
Meus sentidos me fascinam,
Prendem-me aqui.

[Epitáfio da Oposição]

Aqui jaz o Homem Mediano.
Ele morreu na hora certa
com seu melhor atributo:
Pontualidade.
Causa da morte:
Reação pós-operatória,
quando tentavam extrair
seu grande segredo
do seu pequeno peito.
Suas últimas palavras:
Meus sentidos me fascinam,
Prendem-me aqui.

Ramon Alcântara

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Desenterro

a Alphonsus Guimaraens

Aquela diletante
amada querida,
com dedos tateava
minha lúgubre ferida.

Com um afinco dedicado
burilava meu passado,
sobre a extensão corporificada,
a querida amada.

Mas num instante
de estranha inexatidão
algo (que deveria ser) aviltante
assustou sua inquieta mão.

O quê, amada querida,
na sua inspecção,
a deixou surpreendida?
lá, na ferida coração.

Havia um corpo de uma mulher
com o maior zelo pagão
sepultado na região interna,
com direito a caixão branco,
do meu coração.

Mas apesar do seu estado
que para outras acalmaria,
por está enterrado,
a ela causou uma certa agonia.

Como seu amado,
adorando-a, suportaria,
o incômodo daquele corpo?
a amada querida perguntaria.

Como eu suportaria
o peso incômodo do corpo *


*aqui a poesia incompleta nem permitiu o ponto de interrogação no que parece ser uma pergunta.

Ramon Alcântara