Ainda lendo poesia de ontem II

Seguem poesias de outros tempos. Distantes demais!!

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Egoísmo

Cada célula minha só pensa em si mesma...
Escuto ruídos, sinto cócegas, câimbras, arrepios...
Hoje haverá guerra de novo, guerra que só eu morro...
E aqui fora, se estende em profusão as deles, células do Outro...
Um profeta um dia afirmou que cada própria e idiossincrática guerra acabará com todos...
Escuto canhões, sinto medo, pena, arrepios...
Hoje haverá guerra de novo, guerra que nem eu, poeta, corro...

Ramon Alcântara

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Todos meus corpos se me perseguem gozam
(ou Relato das Relações Psicóticas)


Todas minhas bocas me beijam;
Todas minhas mãos me tocam;
Todos meus pêlos me aquecem;
Todas minhas letras me escrevem;
Todos meus braços me defendem;
Todas minhas canções me cantam;
Todos meus dedos me burilam;
Todos meus narizes me cafungam;
Todas minhas veias me correm;
Todos meus olhos;
Todas minhas pernas me levantam;
Todos meus ouvidos me ouvem;
Todos meus desenhos me fazem;
Todas minhas mentes me pensam;
Todas minhas línguas me lambem;
Todos meus úteros me nascem;
Todos meus corações me abatem;
Todas minhas vozes me sussurram;
Minhas reticências me continuam...
Me continuem...

Ramon Alcântara

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Amor às letras da Cecília de poesia

Preciso amar uma poetisa
que ame o amor que amo.
O amor que não existe
aquele mesmo que declamo.

Por este sentimento de menino encarecido,
me apaixonarei pelas letras de Cecília.

Precisava ser recompensado pela poesia
que cantava a canção que canto.
A canção que já não existia,
mas diante de meu pranto,
voltaria e ecoaria.

Por este sentimento de menino encarecido,
me apaixonei pelas letras da poesia.

Precisado, desta forma que me tornei
pus-me a escrever o que me afligia.
Escrevi o que se canta quando ama:
Cecília, Cecília, Cecília... poesia.

Ramon Alcântara

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Preciso de...

Engraçado como a gente precisa do outro.
Eu nesse instante preciso de alguém
que me atenda. Preciso de alguém
que me entenda. Precisa-se urgentemente de
outro! O mais engraçado é que preciso
de outro para falar que não preciso de
outro. Entendeu? Eu preciso
do mundo para me ouvir dizer: "não preciso de
vocês!!". Sem eles não precisava
nada disso. O mais engraçado ainda: preciso
falar tudo isso. Aliás! Isso tudo é impreciso,
de novo a dúvida! Será que preciso
dela? Não, não, eu não preciso dela,
eu, urgentemente, preciso é de
outro, não outra. Não preciso
de ninguém, nem outro, nem preciso
de outra. O que realmente preciso
é de ... o que mais precisamos
está impreciso.

Ramon Alcântara

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Discurso do tutor da poesia de amor (prelúdio para futuras poesias de amor)

Poente poesia de amor,
se o poeta acaso ousar nascer-te,
relutas e mostras que sempre mostras mais,
recusas e morras mesmo antes de crescer.

Se é de amor que ele pretende encamar,
saibas que não é a ti que deve recorrer,
nem ao fim, nem mesmo a si mesmo.
Pois é para isso que o crepúsculo traz o sofrer.

Somente para tal finalidade: fincar.
E o sol se põe (finca-se) contra toda sua infanto-rebeldia
e tu que ainda és feto, direitos mais-que-puros sim, há de ter.

Quanto ao resto, imundo resto, resumindo: poetasofrer.
Quando ousar fazer-te, menina poesia,
traga suas estropiadas palavras e suma com elas e com quem as ler.

Ramon Alcântara

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A carta castelo

Eu sou um castelo em ruínas
e essas torres destruídas são minhas instabilidades
e esses canhões enferrujados são meus braços inativos.
Eu sou um castelo em ruínas
e essa porta levadiça, que jamais se abriu, é meu coração
e esse esgoto ao meu redor é minha arrogância.
Eu sou um castelo em ruínas
e essas bandeiras rasgadas são meus ideais
e esse rei sorrindo, num trono de ouro, é minha hipocrisia.
Eu sou um castelo em ruínas
e esse povo clamando justiça talvez seja meu senso
e esse porão úmido é meu rancor.

Declamo-me culpado
e entrego-me as traças.
Comecem a atirar as Pedras Julgadoras
nesse castelo em ruínas.

Ramon Alcântara