Como pena que cai

Incrível,
a potência do in-di-ví-duo
atuar sobre vida de outro.
E a cada encontro,
vão se re-construindo
conforme os ditos
e os olhados,
e os não-ditos olhados desviantes
acá também faceiam.

Incrível,
ser-me sempre,
mas ser-me mais ao vê-lo
e saber que ele decerto
é-se mais também, ao presenciar
toda essa trama.
E os outros olhados e ditos, ao redor,
nos fazem ainda mais.

Incrível,
está tanto à mercê
dos passos dos abraços.
E mesmo em silêncio,
e mesmo a solidão
nos fazem mais.
Uma constante e interminável
re-construção, re-constrição.

Incrível,
presos na vida que nos cerca,
emaranhados de subjetividades,
onde nem sequer a morte
nos pára.
A cada visita ao túmulo,
a cada palavra de lembrança e choro.
Mormente os Imortais,
que se puseram a ser interpretados.

Incrível,
e nesses instantes que me tomam,
apropriando-se de mim,
toda minha extensão corpórea
molesta-se.
Cada dito, uma afecção;
cada olhado, um rubor;
e cada não-dito, uma dor inamovível.

Como pena que cai,
sempre tentando declinar.

Ramon Alcântara