O papel materializa meu fantasma...

O papel materializa meu fantasma que embora seja-não-nascido-nunca emerge quando morro - as vezes às vezes - e sou apenas matéria úmida da terra - lavoura - as páginas dos livros que escrevi

Ou ele vem do passado
ou ele vem do futuro
eterno não-nascido
um homem árvore
árvore morta
espectros
na matéria
das páginas
morto
espalho-me pelo mundo
como um fantasma
perambulo pelas bibliotecas

E quando o livro já estiver morto
e suas páginas forem orgânico da lavoura
já estarei como matéria consolidada
na bioquímica de suas gerações
atravessando sua história e sua herança.

Ramon Alcântara

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"(...) o espectro é uma incorporação paradoxal, o devir-corpo, uma certa forma fenomenal e carnal do espírito. Ele torna-se, de preferência, alguma 'coisa' difícil de ser nomeada: nem alma nem corpo, e uma e outra (...)" (Jacques Derrida, Espectros de Marx, 1993)