Eu, parado, sorrindo, sentindo dor: maníaco estupor

Meu sorriso é de pedra: estático.
Já não posso escavá-lo como outrora.
Meus olhos, de espumas
do resto do imundo mar.
Meus passos e minhas mãos
se confundem com o ar.

Dessas pessoas ao meu redor,
uma é minha mãe - outra, o doutor.
Se incomodam com minha alegria,
ingerem-me drogas para sentir dor.
Tristeza soluciona euforia.
Me tiram de uma coagulada mania: estupor.

Meu sorriso é de aço: não quebra.
Já não posso uní-lo com os dos outros.
Colunas velhas que não se movem: minhas pernas.
Sustentáculos de um castelo envolto.
Minhas pernas e meus toques
jamais alcançarão meu corpo.

Estou tonto e o tempo não pára de passar.
O doutor desesperadamente grita-me:
“Aqui garoto: eu, sua mãe - e você onde está?”
Eu? Passou...
no rastro da minha mãe e do doutor.
Não dá! Não dá para eu me parar.

Meu sorriso se foi há tempos.
O que vocês observam é uma insistência doentia.
Meus olhos são de pó
do mar que evaporou... (um vento passou...)
Meus passos e meus toques
causam-me uma incômoda dor.

De repente vêm nuvens.
Ao contrário de tudo, num movimento devagar.
Nuvens incolores, brancas,
amarelas, vermelhas ou negras.
Com a qualidade que não tenho:
o flácido poder de chorar.

Meu sorriso é minguante,
que à noite vem espantar
tais nuvens chorosas,
que de lágrimas hão sempre
que se formar.
A lua minguante. O sorriso estático.

Minha mãe, eu e o doutor
ficaram desanimados na janela a observar
um garoto demasiadamente animado a sair correndo, correndo, correndo, correndo...
As crianças da rua corriam atrás...
Minha mãe corria atrás... (imagem triste!)
Cansaço demonstrou o doutor.
E eu fiquei na janela sorrindo
e não achando graça da minha dor

Ramon Alcântara