Mas por que eles fico? (Amigos Imaginários # 02)

Eu uso minha poesia
para repelir aqueles
que não quero ao meu redor.
Seu cheiro agridoce,
suas feridas seculares decompostas,
seu gosto amargo áspero,
suas longas frases insensíveis,
sua constante presença inconveniente,
sua rola exposta obscena,
seus sintomas negativos psicóticos,
seu olhar desviante irônico,
suas grandes mãos fétidas,
suas repetições insistentes,
sua inocência ingrata fingida,
seus erros de digitação pueris,
sua fé em um deus interesseiro,
seus pêlos avantajados nas orelhas imundas,
seu rabo mal-lavado bem-quisto,
seu orgasmo de plástico branco,
suas digressões politicamente corretas,
sua incompletude preguiçosa,
sua barriga gordurenta hostil,
sua infidelidade genética
e tantos outros aspectos
que lhes são inerentes.

Mas por que eles fico?
Mas por que eles leio?

Quem responde por essa panacéia ao meu redor?

E quem são eu?

Ramon Alcântara



Em outro instante:


Onde eles fui?
(Amigos Imaginários)

E quando procurei,
já não havia nenhum
sequer...
Apenas cartas outras
com suas desculpas
sinceras.

E quando voltei, -
nenhum aqui também -
Pena!
Outras cartas apenas,
mais nada.

E quando fui mais pra lá, -
nada a respeito -
se dizia.
Lembranças restaram
sequer.

E sem esperança,
abri as cartas, -
Pena! Apenas - mais nada -
se dizia.

E fui, e fui, e fui...
sequer mais nada,
apenas caixas
vazias -
se dizia.

E cansado,
abri as outras, -
sinceras, mas
vazias.

E cansado,
coloquei as lembranças
e as cartas vazias
nas caixas vazias.

E cansado,
as enviei para lugar algum.
E quando procurei-me,
e fui, e fui, e fui...

Ninguém aqui também,
apenas um epigrama,
uma breve Poesia,
mais nada -
se dizia.

Ramon Alcântara