Não esqueça que te amo + Quando o dono da Venenaria se apaixonou por uma jovem senhora borderline

Quando o dono da Venenaria se apaixonou por uma jovem senhora borderline

Te amo de tal forma
que não consigo ir
que não contigo ficar
que não consigo rir
que não contigo chorar
que não consigo falar
que não contigo calar
que não consigo levantar
que não contigo cair
que não contigo largar
que não consigo pegar
que não contigo dormir
que não consigo acordar
que não consigo andar
que não contigo parar
que não contigo perder
que não consigo ganhar
que não consigo estar
que não contigo faltar
que não contigo negar
que não consigo afirmar
que não consigo viver
que não contigo morrer
que não consigo morrer
que não contigo viver
De tal forma que não consigo amar.


Ramon Alcântara
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Não esqueça que te amo

Trancada no banheiro ela escuta-o murmurar seu nome… cinco meses ela pensa… cinco meses…eu não aguento mais... Desde a noticia do médico, o seu amor definha na cama.. Perdendo a lucidez na maioria do tempo... ele não consegue mais falar, e nos raros momentos de lucidez a comunicação é via escrita. Pra ela já não há mais sabor na relação, sente-se como uma escrava....lutou tanto por ele... seu segundo amor na vida... Perdeu noites, esteve ao lado... mas agora sente um ódio estranho, uma força que rejeita tudo que construiu... As lágrimas caem livremente em um incessante grito de dor... O som está ligado... toca a música que sempre amaram escutar juntos... sentada, segura fortemente a arma... o espelho não reflete o sofrimento... Tudo foi tão lindo antes da doença... as projeções, os planos, o companheirismo... Agora tudo tão nublado, as fugas se tornam constantes... as saídas, as traições que nunca imaginou fazer... o reencontro com o antigo amor, sem sabor... Há duas semanas ela sabia que tinha que resolver... Os gritos aumentam a cada momento, a dor é insuportável, a cabeça pende pro lado e as lágrimas já mancham seu rosto... Tudo está nublado... os dias se tornaram cinzas... não havia como imaginar que isto se tornaria uma maldição...Aperta as mãos, olha para a parede vazia igual a sua esperança... aqueles encontros suaves... as flores... as promessas... tudo era um nada agora... O rancor lhe surgia mente e a raiva agora era disforme... ela não merecia isso... Como pôde ser tão egoista a destruir-lhe a esperança... esse amor putrefado na cama que corrói todas as expectativas de um brotar de sorriso... Hoje é a noite... ela pensa e se contorce... já é tarde... ela esperou demais por uma nova chance que nunca virá... pensa nas desistências... na fuga para aquele local afim de que ninguém notasse sua desgraça... Tinha se exilado... perdia-se em si própria... todas as desesperanças eram vivas quanto fogo que consumiu as poesias que fizeram juntos... Um soco na parede a faz lembrar dos planos... iam fazer um ano... o vinho ainda espera na geladeira... pensa que nunca será aberto tanto quanto as cicatrizes desta dor sem fim... o silêncio paira na casa e ela assume que deve sair daquela poça de sofrimento... ergue-se e a mão vai ao rosto em vão na tentativa de secar-lhe o rosto... abre a porta e vê aquele corpo parado, estático... sente algo diferente no quarto, mas a sua dor é a dona das sensações... aproxima-se... levanta a arma... a mão treme como se o corpo tenta-se negar a decisão... pensa no fim de sua vida... pensa no tempo de sofrimento... ela não merecia isso... não iria aceitar... o gatilho é disparado... o grito é dela... as lágrimas continuam e o corpo parece não dar sentido as suas ações... senta na cama...chora.. a arma cai... respira... percebe o corpo ensaguentado que não reage...olha ao lado... o caderno que era o único elo de comunicação está no chão... os remédios revirados... Como num impulso pega as anotações... assusta-se... há algo escrito que ela não vira antes... os rasbiscos ficam nítidos

Meu amor não é suficiente e eu sei. Você disse que a vida é demais para se pensar às vezes quando se está morando entre dois caminhos. Isso que vivemos é difícil demais para se mexer quando parece que tudo te deu as costas. E ninguém se importa em perguntar porque eu me sinto assim. E eu sei que você se sente desamparada agora, e eu sei que você sente só. Esta é a mesma estrada, a mesma estrada em que estou. Mas o que você pensava que era real nessa vida se esfarelou. Isso de algum jeito, te leva ao lugar errado. E agora você fica tentando, tentando encontrar o lugar a que você pertence. Percebo no seu cheiro suas mudanças... na falta de sorriso seu sofrimento... Não sei se você me culpa, mas eu me culpo muito... tudo que sonhamos nunca se realizará. E eu estou aqui te prendendo, enquanto vejo você mudar, a vejo se esconder pra ter sua vida... Isso já é suficiente pra mim e tomei uma decisão... deixarei você ir... esperarei meu último momento de lucidez... Não esqueça que te amo.

Agora não há lágrimas... um ódio sobe-lhe a face... o caderno cai... num ato impulsivo pega a arma... dispara mais vezes contra o corpo inerte... grita – Como pode fazer isso comigo? - ... desespera... resta uma bala... e a música para de tocar...

Jardson Fragoso