Eu, o poeta e a pedra

Essa poesia tem mais ou menos cinco anos. A de Carlos tem 80 anos. O que arrasta definitivamente pra longe é saber que antes do homem, Deus fez a pedra e que a Poesia subjaz a Criação.

Eu, o poeta e a pedra

Eu conheço a
pedra do poeta.
O poeta conhecia
a pedra que lhe cabia.
A pedra não conhecia
nem a mim, nem ao poeta,
pois do seu caminho ela não saía.

Havia uma pedra no caminho da pedra.
No caminho da pedra, uma pedra havia.
A pedra, concluo, nem se quer se movia...

Eu conheço o
poeta da pedra.
A pedra não conhecia
o poeta que lha caberia.
O poeta não conhecia
nem a mim, nem ao próprio poeta,
pois da sua poesia ele não saía.

Havia um poeta no caminho do poeta.
No caminho do poeta, um poeta havia.
O poeta, concluo, nem se quer se movia...

Havia um poeta no caminho da pedra
e no resto dos meus dias.

Ramon Alcântara

No diálogo:

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

Incidental:

Pra que serve a Poesia?

A Poesia não serve,
a Poesia impera.
Outro o questionamento.
Quantas vezes, em uma única vida,
se acorda sem querer
e sem saber o porquê?

Ramon Alcântara