Andaimes de bolas de sabão

Estou com os hormônios a flor dos ossos.
Estão sendo corroídos.
E o que me sustenta são as curvas do desejo.
Com o bulbo e o cerebelo arrepiados.
Há uma fissura na minha Escolha.
Parte no selim, o resto no guidom.
As veias tremem ansiosas.
O que me sustenta é o dis-curso, des-vio.
Procura-se minha alma.
Última vez que foi vista estava moribunda
ébria vagando melancolia em um sonho alheio.
Que me sustenta são alguns andaimes.
Re-encosto cambaleante uma mão nesta poesia
e a outra nas dúvidas de 1999.
O fio sob meus calos é a volúpia mentirosa dos materialistas.
Sustenta-me o império poético.
As bolas de sabão suspensas no ar
presas a finos barbantes que na outra extremidade me têm
inclinado em um penhasco.
Sustenta-me o tempo que ainda se conta nesse instante.

Ramon Alcântara