Desistência Fúnebre

Já na adolescência, enquanto suas amigas iam admirar o poente, ela ia para os fundos e recostava-se para ser no ballet dos morcegos. Ali reclinava sua desistência... era ali uma desistente.

- O que faz aí sozinha filha?

(silêncio desistente)

- É uma poesia isso na sua mão?

(ainda silêncio desistente)

- Fez agora essa poesia? De quando é?

- Minha poesia é de sempre e é de nunca. (responde)

(chegam as amigas com olhares assustados e preocupados)

- Desistentes do mundo, des-uni-vos! (grita)



*****************


Desistência fúnebre

Quem diria...
minha história está chegando ao seu fim...
mas já não sou eu que escrevo, e sim a face mais cruel do destino...
era tudo tão belo (se eu soubesse como era belo assim, evitaria a passagem do tempo)... depois as coisas começaram a ficar estranhas, os acontecimentos emergiram, sendo colocados como sempre estando ali, escondidos, imperceptíveis...
hoje tudo é tão horrível, me vejo tão só...
vejo meus passos também parando, meu corpo também parando, meus pensamentos também parando...
tudo parando, acompanhando a desistência fúnebre da marcha que outrora fôra tão sublime...
vou parando meio contragosto, mas não tenho opção: continuar para quê? para quem?...
me cobro reações mais românticas, literárias, eu que sempre fui assim, mas a desistência é... é tão sem sentido, tão triste, sem sorriso, que não tenho forças...
o que tentei enquanto prezava pela caminhada foi inútil, apelo burro, improducente... lamentos, sim, ajuda, nunca...
só fiz...
nem sei as consequências do que fiz...
agora, para entender essa pertubadora contradição: o grande amante, inerte, sem ação, fico me pregando, cada prego uma dor, uma culpa...
estou fraco, quando preciso ser forte...
estou fraco, da forma mais vexatória para um dito amante...
entendo-me, impotente...
as mesmas mãos, que em conjunto, dadas, dando-se, faziam a caminhada, agora, trêmulas, só sabem passear pela cabeça, tocá-la, encontrar outras mãos, sem saber o que fazer...
não sabem onde ficar...
perdido assim, costuro meu coração, num serviço inverso, rasgando-o e fico a sangrar todos esses últimos dias da minha história...
sangro palavras desconexas...
sangro sorrisos aéreos, festas sem sentido...
sangro, desistente...
já não me acompanha, sigo só, espero a minha vez...
sangro...
sei que não vai demorar muito, só estou esperando o sinal...
o estampido ecoado lá...
o estampido ecoará aqui...
duas tampas...
dois buracos...
uma marcha finalizada...
porque fiz isso?, pergunto-me, depois...
já não sangro, não posso responder, no fim da história não há explicações, há...
há um límpido sentimento nas trocas de olhares de que não poderia ser diferente...
as mãos sempre estiveram tão juntas...
os passos, sincronizados...
o fim, antes não esperado, é o mesmo...
conto uma história paralela...
olhar desistente...
mãos desistentes...
andar desistente...
poucas palavras, desistentes...
expressão desistente...
um sentar/levantar/sentar, rotina desistente...
desisto também...
não haveria outro fim para mim, assim...
para quê? para quem?, explico agora, antes...
antes do estampido ecoar...
nesse instante todos se levantam e aplaudem, ele faz a reverência e as cortinas são fechadas...
ele volta ao tablado...
antes do estampido ecoar aqui também...
quem diria...

Ramon Alcântara