Ainda lendo a Poesia de ontem

A poesia de suas mãos, de minha boca e dos pensamentos de um de nós ou dos dois

Qual a utilidade das minhas mãos?
Se eu não fosse um dos desistentes,
as deixaria cair em vão.
Mas por ser, isso nem torna-se preocupação.

Se as mãos dela estão soltas,
as duas – esquerda sobre coxa
esquerda, direita sobre coxa
direita – por que levantar as minhas?

Já não preciso de minhas mãos.
Vejo, desistente e cansado, caírem ao chão.
Fico olhando disperso, ambas.
Tão disperso estava eu que me abaixei para pegá-las.

No entanto, sem mãos como as pegaria?
Fiquei sem poder significar aquele instante.
Olhei para ela, continuava do mesmo jeito,
mão esquerda, mão direita, vacilantes.

Ou seja, não tenho mais minhas mãos
e as mãos dela tornaram-se inativas.
- Recolha minhas mãos, Amada!
Ela não me ouve, não se ouve, não se sabe.

Entro assim em um drama.
Sinto uma incessante e sequenciosa vontade de poetizar.
Mas, com que mãos?
A angústia torna-me ainda mais criativo, mas... as mãos?

Grito a ela, um grito rouco, mas... ela?
Até que decido agarrar as mãos dela com minha boca.
E nessa cena trágica, com todo meu frágil esforço,
ela escreve minha poesia.

Minha poesia fala
das desistências, das minhas, das dela, mãos.
Fala de mim, fala dela...
Começo a notar que as palavras não eram as que eu escrevia.

Percebo então que é ela quem escreve.
São palavras mudas, invisíveis, intraduzíveis.
Mas eu as vejo e traduzo no rastro de tempo que se mostram.
A poesia é minha ou é dela, então?

Minha boca na sua mão,
sua mão sobre o papel.
Meus pensamentos passam, em movimentos,
da minha boca às suas mãos... minha ou dela?

Mas o papel... as palavras são outras.
Me angustio ainda mais.
Entro assim no segundo drama.
Volto meus olhos ao rosto dela.

E de uma forma absurda, percebo-me, disperso
ao notar que ela já não estava lá.
Existia apenas as mãos dela.
Seu corpo estava inerte, caído junto as minhas mãos no chão.

De quem é a poesia, então?
Quem escreveu essa poesia?
Como estava sem poder fazer grandes reflexões,
larguei a poesia, dando ao poeta Vento que passeava por ali naquele instante.

Voltei a meu canto, sem me saber.
Fiquei a observá-la, sem se saber.
Nada parecia tão importante,
nem as milhares de pessoas circundantes... também, representantes.

Ramon Alcântara

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Eu, parado, sorrindo, sentindo dor: maníaco estupor

Meu sorriso é de pedra: estático.
Já não posso escavá-lo como outrora.
Meus olhos, de espumas
do resto do imundo mar.
Meus passos e minhas mãos
se confundem com o ar.

Dessas pessoas ao meu redor,
uma é minha mãe; outra, o doutor.
Se incomodam com minha alegria,
ingerem-me drogas para sentir dor.
Tristeza soluciona euforia.
Me tiram de uma coagulada mania: estupor.

Meu sorriso é de aço: não quebra.
Já não posso uní-lo com os dos outros.
Colunas velhas que não se movem: minhas pernas.
Sustentáculos de um castelo envolto.
Minhas pernas e meus toques
jamais alcançarão meu corpo.

Estou tonto e o tempo não pára de passar.
O doutor desesperadamente grita-me:
“Aqui garoto: eu, sua mãe; e você onde está?”
Eu? Passou...
no rastro da minha mãe e do doutor.
Não dá! Não dá para eu me parar.

Meu sorriso se foi há tempos.
O que vocês observam é uma insistência doentia.
Meus olhos são de pó
do mar que evaporou... (um vento passou...)
Meus passos e meus toques
causam-me uma incômoda dor.

De repente vêm nuvens.
Ao contrário de tudo, num movimento devagar.
Nuvens incolores, brancas,
amarelas, vermelhas ou negras.
Com a qualidade que não tenho:
o flácido poder de chorar.

Meu sorriso é minguante,
que à noite vem espantar
tais nuvens chorosas,
que de lágrimas hão sempre
que se formar.
A lua minguante. O sorriso estático.

Minha mãe, eu e o doutor
ficaram des-animados na janela a observar
um garoto demasiadamente animado a sair correndo, correndo, correndo, correndo...
As crianças da rua corriam atrás...
Minha mãe corria atrás... (imagem triste!)
Cansaço, demonstrou o doutor.
E eu fiquei na janela sorrindo
e não achando graça da minha dor

Ramon Alcântara

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Tentativa de significar as tardes sem sentido

Fundo-me ao tecido sujo do lençol.
Molho-o com a última rançosa gota do suor.
Afundo-me, então, na unidade úmida dessa podridão,
transformando-a, assim, na escultura da solidão.

Faz um calor absurdo nesse mundo... cama.
Meus pensamentos derretem-se... lágrimas.
Das minhas vozes, a única que resta, clama
por sua presença, na confusão... Diana? (deliro)

Mas a intensidade dos raios solares revela-me
que não há virgem, não há mármore, nem intocabilidade.
Revela-me também que esse meu sepulcro faz-me ainda mais vivo
e que tudo que existe nos pensamentos são possibilidades.

Construo, destarte, o grande amor... verdade? (pergunto)
E na mínima contagem de tempo próxima... mentira. (respondo)
Culpo-me ainda mais e o calor, como reflexo, aumenta.
... a cama já encolhe, o mundo torna-se pequeno.

Cama, lágrimas, suor, lençol... amo. (suspiro)
Pergunto, respondo, verdade?... amo. (deliro)
O calor está aumentando, a cama encolhendo,
e com ela, já rouco, percebo-me também sem pensamentos.

Sem pensamentos, caio da cama.
... escultura da solidão. (lembro)
... amo. (termino)
... não consigo...
Já é noite, ainda estou insatisfeito com o Fim da Poesia.

Ramon Alcântara