Rabiscos Transitórios

Mudei de lugar e a poesia desestabilizou-se com a mudança (como se em algum instante esteve estabilizada). Melindres. Estranho é fazer poesia em outro lugar. Hiato. De repente, meias palavras ou frases tão completas que não se sabiam e passavam por mim sem chances de compreensão. Vejo as poeiras descendo do alto aos poucos, mas tudo turva ainda. Surgem alguns rabiscos transitórios, ainda crentes de estarem em algum lugar.


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Rimbaud de supermercado

(livros, leite, sabão-em-pó...)

Acordei cedo
fui ao supermercado
comprar frutas finas
para meu amor
aproveitei e comprei
um Rimbaud.
Uma temporada no inferno.

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Voltei logo
pra dormir,
afinal
amanhã é outro dia.

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Passo meus dias
me dando gelo,
sem saber
que prefiro caubói.

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Com Rimbaud
os dias
ficam mais pesados
mais travados.
O corpo mais pesado.
O pensamento
não levanta
da cama. A cabeça atravanca o resto do corpo.

***

Aproveitem os cantos
eles estão se confundindo
pelos meios e pelos fins.

***

E as donas-de-casa,
todas lendo Rimbaud,
enquanto seu lobo não vem.

Ramon Alcântara

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Fim de Tarde

O fim de tarde daqui
é maravilhoso!
Mas não aquele fim de tarde
com sol se pondo, natureza, andorinhas...
crianças voltando da escola...
Mas com varanda, casarões,
a cerveja que esquenta fácil,
radiohead,
o mar lá distante...
E a vida toda,
que vem como um documento recuperado.

Ramon Alcântara