Ann Nothing, so far.

Estética pós-moderna. Tudo e todas e todos em uma poesia. Um diálogo com Billy. Personagem das Personagens da Personagem Poeta. Tenho um carinho especial por essa menina, a despeito do Julgamento. Mais que indefinível, uma definição procrastinada eternamente, num exercício de gozar. Um poeta afirmou: Misto de isto e aquilo, o homem é quase nada. Eu diria que Ann é esse misto mais aquilo e mais isto e mais isso e mais algumas coisas, so far. Por assim, rendi-lhe homenagem nesse novo lugar.


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Ann Nothing, uma personagem nascida de interseções alheias e próprias. Anda por aí, um pé em cada verso, dançando distraidamente pelas poesias. Com suas roupas, calça apertada, botas grandes e camisão (com alguma mensagem). Alguém que não se sabe e ainda outras pessoas. Daquelas que nunca se diz. Ann Nothing, elas e eles, mantendo-se. A dubiedade. Personagem das Personagens da Personagem. Ann Nothing é acima de qualquer consideração uma conversa discreta que não se ouve. Há mais. O não-dito olhado desviante a faz. Nas veias dela corre sangue de plástico branco. Ann Nothing tem o gozo do nascimento.

A triste vida de Ann Nothing


E possuía tantas metades,
tantas metades
que já não sabia
por onde começava,
onde terminava. Fugidias.
Onde estava.

E aqueles band-aid,
tantos quereres,
- of a broken heart, of a broken heart.

Mas a máscara lhe dava uma cara,
e emendando-se apresentava sua pessoa
em lugares que Aristófanes não freqüentava.

E somente às vezes,
dava por se esconder na sua webcam,
exibindo-se em telas alheias,
na .compainha de seu
Admirador Secreto.

Sempre falava de amores,
- of a broken heart, of a broken heart.


[certa feita, chegou uma msg no celular... não se sabe quem enviou, quem recebeu.]


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Com seu button on/off. Ann se completa toda na segunda. Ela mesma. Reflexo. Glass and the ghost children. E esvazia-se ainda. Para provocar ânsia de vômito. E derrama alegria nos seus seios alheios. Corpo meio vazio, meio cheio. Por que nós chateamos tanto? – indaga. Assim se faz palavras que se encontram para se entender. Mais. Períodos de oração. Fé virtual num poeta divino (seu admirador secreto). Tão mocinha ainda. Penugem vulgar. O que faz. Mas no outro dia arrepende-se e promete que ela ainda namora. Juntar as partes desiguais. Sangra os dias. Olha o espelho quebrado. Olha-se no vidro. Ann olha para Nothing. Nothing se esconde dela. De si. E no outro fim de semana promete, ela se mudará. Casa nova. Ouvir canções mais delicadas, de acordo com sua tenra idade. Tantas horas! Pra quê servem? Cair e sentar no sofá. Escrever e apagar como no ctrl+alt+del_se do poeta. Se maquiar por uma década com as cores mais densas. Fingir mulher. Trepar-se. Ann se esvazia toda nela mesma e transborda nela mesma e transborda ainda mais e enche tanto de tanto esvaziar-se em si. Ela com ela mesma. Ann Nothing, classe média. Começa pelo meio sempre. O fim é o mesmo meio. E sempre seu fim é o começo.

O vazio de Ann Nothing

_o meio

domingo.
noite.
após o Domingo Maior.
vai deitar-se,
em sua tonelada solidão.
eu com eu mesma. goza.
existência arrastada
da última poesia: daydream
nas páginas marrons.

_o fim

acordou ontemamanhã.
a tv fora do ar.
Nothing of Nothing.
as horas?
pra quê tantas?
pra quê servem?
e o controle onde está?
a tv continua ligada. sofrendo.
_o início

pensar.
com o sol.
Ann levanta-se do sofá e senta-se. ombros.
piscam os olhos.
tremem as mãos.
angústia de Nothing.
correr.
quarto-sala.
cozinha americana.
sabe sua inexistência
com a décima poesia Corgan.
e desvela-se
em qualquer Chat.
dia após dia.
masturba e prosopopéia seu vazio na Internet.

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Ann Nothing abre uma Fiat Lux

Abri a caixa de fósforos
só tinha palito queimado,
acendi o cigarro
com o meu fogo fátuo.

Abri a Genealogia da moral
não tinha nem bem nem mal,
matei o pai Karamazov
para me pôr como parricida.

Abri a porta do Quartzo
e lá fora só se ouvia Houston Person.
- Nada como uma depressão pós-20!
Corri do lado de Tom Cruise Vanilla Sky.

Abri os botões da minha camisa
vi nos meus seios as cinzas,
arrependi-me de acender aquele baseado,
sentei-me olhando para trás (através do meu peito furado).

Abri minha cabeça com Klee:
chicletes, pitucas, carvão, cebola e uma jarra meio-vazia meio-cheia.
- Nunca achei o que procurava.
Gritei para Munch enquanto ele me olhava.

Abri 7 Palmos no chão de mármore.
- Por que as pessoas morrem?
Lá embaixo Mefistófeles não soube explicar
mandou-me ligar para o SAC.

Abri meu telefone de bolso
um exemplar raro de Dante.
- Como se perde na poesia.
Ao menos ninguém atendia (eu escutando forçosamente My Romance).

Abri uma escavação no centro de São Paulo
ninguém apareceu para reclamar.
- De volta a uma cidade grande.
Tongue para as caretas dos edifícios sem mar.

Abri a porta da casa do Gourmet.
- Hoje ninguém veio comer, Ann.
Fiquei sabendo da noite de autógrafos do velho escritor.
- Platão? Não senhor, tem PF?

Abri a semana e já estava na mídia
perguntavam como eu pensava.
- Não que eu não saiba não...
Mas um homem gordo não deixou me concentrar.

Abricó - o fruto do abricoteiro;
Abricoteiro - árvore sapotácea;
Abrideira - aperitivo, em geral de aguardente;
Abridor - instrumento para abrir;
Abrigar - resguardar-se de intempérie;
Abrigo - lugar que abriga;
Abril - o quarto mês do ano;
Abrilhantar - tornar-se brilhante;
Abri meu mini Aurélio e não me encontrei lá.
- Não que eu não saiba não... (silêncio e indisposição)

Abri a porta da sala do meu analista, Sr. Ronald McDonald.
- Quantos Picasso! Quantos!?
Ele explicou-me que era necessidade e catexia.
- Que saudade dos Fevers (a gente era feliz e não sabia).
Abri o zíper da minha calça e mostrei a palma de minha mão esquerda a ele.
- Sua herege, saia daqui! Sua vadia!
Fui posta para fora sob olhares suspeitos de Sir Sherlock Holmes,
fui morar em Pasárgada (lá meu amigo é amigo do Rei).

Abri lá uma livraria de cigarros.
- Temos todos os tipos e tamanhos:
auto-ajuda, religiosos, baseados em fatos reais...
Porque tanta gente não entende.

Abri falência e fui ao Rei.
- Não! Não conheço seu amigo
e me explique seu peito furado,
documentos, por favor!

Abri a saída do Paraíso,
cá embaixo estou de novo
andam me confundindo com um ET
logo eu, filha de belos pais: Allan Delon, a Salomé de Rilke e Aristófanes.

Abri a porta do caminhão.
- Vou para onde você for.
- Estou indo para Brasília falar com o presidente para ajudar toda essa gente que só faz sofrer.
- Ué!?

Abri a porta do caminhão
não tinha nada de anormal
desci gritando pelos matemáticos
já estava perdida lost (nem sabia mais onde estava).

Abri os olhos, no colo d'O Homem dos meus sonhos.
- Onde estamos?
- Na Lagoa Azul.
- Mas eu não sei nadar.

Fechei a caixa de fósforos
e voltei ao ChatPaquera:
Ann Nothing, loira, alta, seios fartos, 17, procura.
Adoro ser fingida e me maquiar.

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Cento e trinta e nove amigos virtuais puxam uma conversa casual com Ann pelo MSN. Ela se deixa cair da cadeira e olha além máquina. As mesmas perguntas. Sem respostas. Vejam o olhar de Nothing, sem respostas, sem perguntas. Além vida. Sua webcam ligada para os humanos comuns. Quanto tempo não ler. Livros de poeiras, se abrem e se vão. Ann hoje está muda. Billy se aproxima. Olhando. Experimentando. Minúscula. Reset.

O primeiro suicídio kiriloviano de Ann Nothing

Estava toda melada
em todo meu corpo
o gozo alheio de mim
e não sentia mais nada.

recalcada.

Aquela noite vitrolada
aqueles humanos comuns
i could be a friend to you
num canto minúsculo.

músculos.

Com uma pistola em mãos
desafiava com meus dedos meus deuses
Alieksei Niilitch Kirilov
sou toda tua toda desrazão.

imbecil.

Em 1872, atirei único prógetil
meu crânio em impulso reativo
tremeu no ritmo de sua epilepsia
estava iniciado meu estupro.

ânus.

Penetrou-me durante anos
as batidas Mellon Collie do som
o sobrevivente Billy Corgan se aproxima
ia de uma extremidade a outros.

buracos.

O gozo descia de meus poros
seguindo o percurso da bala em meu crânio
o sangue me vasava grosso
se misturava com a admiração.

escopofílicos.

Era 2005, quando os herdeiros de Kirilov - os rústicos,
na mínima contagem de tempo entre vida e morte
me concedem o título Suicida Extraordinária
a bala sai pelo outro lado.

do começo.

A noite se levanta
quando o som acaba eles saem do canto
não sentia mais nada
toda melada...

de quatro.

Os demônios no canto do canto
the future embrace stop
me lavei com sabão neutro e alcóol
o furo na cabeça não me constrangeu.

em nada.


Now and then i'm Ann Nothing
i could be a friend to you



Now and then i'm Ann Nothing
i could be a friend to you



Now and then i'm Ann Nothing
i could be a friend to you


vírus.


Ramon Alcântara